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Há afetos que sobrevivem não pelo que recebemos, mas pelo que esperamos receber.
Continuamos a investir numa relação porque acreditamos que, um dia, a outra pessoa vai mudar. Esperamos que reconheça o nosso valor, que finalmente nos ofereça a atenção de que precisamos ou que se torne aquilo que imaginamos que poderia ser.
Vivemos presos não apenas à realidade, mas à promessa de uma realidade diferente.
Esta esperança torna-se particularmente poderosa quando o carinho surge de forma irregular: há momentos de proximidade que nos enchem de alegria, seguidos de afastamentos que nos mergulham na insegurança. Então, agarramo-nos aos momentos bons e utilizamos-os como prova de que tudo poderá melhorar.
E, quanto mais investimos, mais difícil parece desistir.
Começamos a pensar no tempo que já passou, nas coisas que sacrificamos, nas oportunidades que recusamos e em tudo aquilo que ainda acreditamos poder construir. Reconhecer que uma relação nos faz sofrer torna-se doloroso, porque implica questionar não só o presente, mas também o sentido que atribuímos ao passado.
É assim que, por vezes, alimentamos a nossa própria prisão com a esperança de um dia sermos livres.
Mas a esperança não deve exigir que sacrifiquemos indefinidamente a nossa paz. Amar alguém pelo que poderá vir a ser não pode significar ignorar continuamente aquilo que essa pessoa é, aquilo que nos oferece e a forma como nos sentimos ao seu lado.
As histórias que contamos a nós próprios.
Os afetos também se alimentam das interpretações que fazemos das nossas experiências.
Se acreditamos que temos de ser indispensáveis para sermos amados, podemos transformar o cuidado numa obrigação permanente. Se acreditamos que estar sozinhos significa não ter valor, podemos aceitar relações que não nos fazem bem. Se aprendemos que o amor exige sofrimento, podemos desconfiar das relações tranquilas e confundir intensidade com profundidade.
Estas crenças nem sempre são escolhas conscientes. Podem estar relacionadas com experiências anteriores, com a forma como aprendemos a receber afeto e com as ideias que construímos sobre nós próprios e sobre os outros.
As experiências afetivas deixam marcas. Por vezes, ensinam-nos a confiar; outras vezes, levam-nos a procurar constantemente sinais de segurança, aprovação ou reconhecimento. E, sem darmos conta, podemos transportar para as relações atuais medos que nasceram muito antes delas.
O mais difícil é perceber que, por vezes, não estamos apenas a responder ao que acontece no presente. Estamos também a reagir a feridas antigas que o presente desperta.
Uma demora numa resposta pode parecer uma rejeição. Uma discordância pode parecer uma ameaça à relação. Um limite colocado pelo outro pode ser sentido como falta de amor.
E, sem percebermos, começamos a reagir menos à realidade e mais ao significado doloroso que lhe atribuímos.
Devemos aprender a questionar as nossas certezas.
Será que não sou digno de amor ou será que tenho medo de não o ser?
Será que essa pessoa está realmente me rejeitando ou será que o silêncio despertou em mim uma antiga sensação de abandono?
Será que estou amando aquilo que existe ou tentando concretizar aquilo que sempre desejei encontrar?
Estas perguntas não têm respostas imediatas. Exigem honestidade, disponibilidade para olhar para dentro e coragem para reconhecer os padrões que se repetem na nossa vida.
Nem todos os nossos sentimentos são descrições exatas da realidade. Mas todos merecem ser escutados com cuidado.
Talvez a verdadeira liberdade emocional comece precisamente aqui: quando deixamos de lutar contra aquilo que sentimos e começamos a compreender o que os nossos sentimentos nos revelam sobre nós.
Porque, por vezes, não é apenas o outro que nos mantém presos. São também as histórias que contamos a nós próprios, as expectativas que alimentamos e o medo de aceitar que aquilo que desejamos talvez nunca venha a acontecer.
E chega um momento em que precisamos de escolher entre continuar a alimentar uma esperança que nos consome ou começar a cuidar da paz que temos adiado.
Amar não deveria exigir que vivêssemos à espera de nos tornarmos suficientes aos olhos de alguém. O amor também precisa de realidade, reciprocidade e liberdade.
E talvez seja quando deixamos de esperar que alguém se transforme naquilo de que precisamos que começamos, finalmente, a descobrir aquilo de que nós próprios precisamos para voltar a ser inteiros.





