Recentemente, o fim do relacionamento de mais um casal de influenciadores tomou conta das redes sociais. Em poucos minutos, a internet virou um tribunal: teorias conspiratórias, análise de linguagem corporal e, acima de tudo, a busca incessante por um culpado.
Isso nos faz questionar: por que temos tanta dificuldade em aceitar que o casamento de alguém (ou o nosso) simplesmente chegou ao fim? Por que todo término precisa ter um vilão?
A Fantasia do “Felizes para Sempre”
Desde a infância, fomos educados com a narrativa do “felizes para sempre”. O casamento ainda é visto por muitos não como uma jornada de convivência entre duas pessoas imperfeitas, mas como uma instituição sagrada e inabalável. Quando um casal se separa , especialmente um casal público que parecia ter a “vida perfeita” a estrutura do conto de fadas se rompe.
Aceitar que o amor pode acabar, esfriar ou se transformar dá medo. Significa reconhecer a vulnerabilidade das nossas próprias relações. Por isso, é muito mais fácil pensar que houve uma traição, uma mentira ou uma grande crueldade do que encarar a realidade: a convivência desgasta e as pessoas mudam.
A Necessidade de Encontrar um Culpado
Quando não aceitamos a imprevisibilidade da vida, buscamos o controle através da culpa. A mente humana prefere uma explicação dramática a um motivo simples.
Se um casamento termina porque as expectativas já não se alinhavam, a história fica “sem graça” e desconfortável. Mas se apontarmos um vilão e uma vítima, a narrativa ganha sentido:
A vítima recebe a nossa empatia imediata.
O vilão recebe o nosso julgamento moral.
No caso dos influenciadores digitais, essa dinâmica se intensifica. O público sente que “investiu” tempo e carinho naquela relação e, por isso, exige uma satisfação. A separação deixa de ser uma decisão privada entre duas pessoas e vira um enredo que precisa de um desfecho claro, com culpados punidos e vítimas consoladas.
O Amor não É um Jogo de Erro e Acerto
A verdade que poucos querem encarar é que dois adultos maduros podem se amar, tentar o seu melhor e, ainda assim, entender que é hora de seguir caminhos diferentes.
Nem toda separação nasce de um erro grave. Às vezes, o fim é apenas o resultado de um ciclo que se cumpriu.
Não aceitar o fim sem um culpado é uma forma de imaturidade emocional coletiva.
Exigir um vilão é recusar a complexidade das relações humanas.
Normalizar o Fim É um Ato de Respeito
Enquanto continuarmos encarando o divórcio como um fracasso moral e não como uma reorganização de vida, continuaremos linchando pessoas na internet a cada término famoso.
Um casamento que durou anos e trouxe momentos felizes não “deu errado” porque acabou, ele deu certo pelo tempo que durou. Aceitar o fim com dignidade, sem procurar monstros onde só existem seres humanos, é o primeiro passo para construirmos relações mais leves, reais e honestas.





